quarta-feira, 17 de março de 2010

Na minha meninice, o Bito era o maioral

Quando eu tinha lá meus 12, 13, até 14 anos, época em que jogar futebol, bater figurinhas e pular na casa do 'seu' Zé pra pegar pipa era normal, tinha um rapaz na minha rua que era o maioral, o ídolo: o Bito! A gente não sabia porque que Bito era seu apelido, já que, algum tempo depois de conhecê-lo, fomos descobrir que seu nome era Paulo Sérgio. Mas, descobrir origem e significado de apelidos às vezes pode ser mais difícil do que entender Bíblia, político ou jogador de futebol, por isso deixemos pra lá.
O Bito era um mito! A gente era molequinho, o Bito era homem: contava histórias de terror as quais ele já havia vivido, dizia sobre os campeonatos de futebol que tinha disputado por esse mundão (e que nos deixava otimistas, já que o Bito era um jogador de futebol que beirava o ridículo, 'mas ninguém é perfeito', costumava dizer), que já conversara com Papai Noel, que já tinha beijado na boca usando a língua, que já tinha visto mulher pelada sem ser em revista roubada do pai ou do irmão mais velho. O Bito tinha uns 20 e poucos quando eu ainda tinha 13, e era compreensível nossa veneração, afinal ele só trazia pra gente coisa nova, coisa que não havíamos vivído!
Eis que a situação começou a piorar, e o Bito começou a fumar. Meus pais e os pais dos outros amiguinhos, claro, começaram a ficar atentos com o Bito - o Bito enganava a gente, não a nossos pais. No começo, o Bito só chegava com marola, fedia barbaridade, e dava risada de nós todos, mesmo quando o Marcelinho contava piada, e o Marcelinho era péssimo contando piada. O Bito começou a dar preju na casa dos outros, porque a compra do mês de ninguém dava mais conta, já que o Bito acabava com tudo, comia, comia e comia, e sempre queria mais, teve dia que até dona Maria, mãe do Gegel botou ele pra correr, gritando 'marginal! marginal!'. A gente, claro, só foi entender anos depois...
Um dia, a polícia baixou na rua, a gente (os sub-14) não tava entendendo nada, e o Bito tentou sair correndo. Tomou uma latada no vão das pernas - foi até bonito de ver - e tombou, gostoso, na frente da minha casa. Os polícia veio pra cima dele, seguraram e algemaram, e a gente não tava entendendo nada. Um dos polícia pergunta pro Bito se ele achava bonito se meter com aquelas coisas, e o Bito lançou uma que jamais esqueci:
- Senhor, como diria o mestre, se Leonardo Da Vinci, porque é que eu não posso dar dois? - tomou um cascudo cinematográfico e entrou na viatura.
Anos mais tarde, quando fui entender de onde ele tirou essa frase e o porque de usar por ali, me peguei sorrindo. É, o Bito era um gênio.

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