A gente sabia que a Soninha do Nelson é uma mulher dessas de ninguém enxergar defeito. Ninguém sabia que o Nelson tinha a capacidade pra ter um avião daqueles no seu hangar, uma Ferrari como ela no seu paddock, uma bike com aquela estirpe em sua ciclovia, e por aí vai! A Soninha é daquelas que você diria sim ao padre antes de ele pensar em começar a cerimônia. A Soninha é um monumento de dar inveja, e a gente tinha inveja do Nelson. Muita, mas disso o Nelson quem não sabia!
Outra coisa que a gente sabia do Nelson era que ele adorava um carteado, um buraquinho, um pôquer, até mau-mau quando ele estivesse meio 'mau-maudo' - trocadilho com mamado, bêbado: ninguém sabia que o Nelson falava isso quando estava bêbado. E, como ele não tinha amigos, acabava nos convidando, já que ele gostava de uma apostinha. E, assim, todas as quintas-feiras, todos nós (Julio, Manoel, Andrezinho, Galego e eu) íamos à casa do Nelson apostar um baralhinho pra desestressar. E, mesmo semanalmente, ninguém sabia praticamente nada da vida do Nelson, pois não nos falava mais nada a não ser sobre baralho e o Paulistão e sua Macaca.
Num desses dias de baralho, chegamos mais cedo na casa do Nelson, e, antes de apertarmos a campainha, escutamos uma briga entre a Soninha e o Nelson, lá dentro! Quebra-pau desses de colocar 'Gigantes do Ringue' no bolso: panela voava, e cadeiras, e palavrão comendo solto, só se escutava a Soninha berrando e o Nelson nem ouvíamos. Resolvemos, sabiamente, ir embora. Não ia haver clima pra roubar o Nelson naquela noite.
No outro dia, chegamos para trabalhar na repartição, a nada de o Nelson aparecer. Até que, umas 3 horas após o horário que ele deveria ter chegado, nosso chefe, o Afonsinho, recebe uma ligação do Nelson, avisando que sua mulher havia morrido por conta de um troço na cabeça, que o Afonsinho não soube explicar. Deu 5 dias de folga pro Nelson.
Até que, depois da folga, o Nelson apareceu para trabalhar, e todo mundo foi abraçar o Nelson, apresentar condolências, aquela praxe. E o Nelson chega pra gente, os companheiros de carteado, para avisar que na próxima quinta ia ter, que íamos devolver o prejuízo de não termos aparecido na anterior pro jogo.
Então, o Julio perguntou:
- E aí, Nelson. E a Soninha?
- Um pouco nervosa, só - respondeu, calmamente, ele.
Todos ficamos perplexos, afinal!
- Mas, a Soninha não morreu? De um troço na cabeça?! - indagou Manoel.
- Não, a Soninha foi quem matou! Quem morreu foi a Laurinda, levou uma golpeada na cabeça, da Soninha, com um dos meus tacos de golfe. Foi feio...
Pois é. Na repartição, ninguém sabia que o Nelson tinha tacos de golfe...

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